Uma das vítimas que acusaram o empresário Rodrigo Carvalheira de estupro registrou uma denúncia contra o juiz Edmilson Cruz Júnior, que analisa o caso dela. À TV Globo, a mulher, que pediu para não ser identificada, disse que o magistrado fez perguntas constrangedoras que a fizeram se sentir acuada na primeira audiência de instrução do processo, realizada em 16 de junho (veja o vídeo acima).
"Ele perguntou para uma testemunha se eu não preferia sustentar um estupro do que dizer que tinha feito sexo consensual. Isso realmente me marcou e doeu, porque ele não tem realmente... O homem não tem noção do que é sofrer um estupro. [Para] ele perguntar isso, ou ele está realmente advogando para o réu ou ele não poderia estar defendendo esse tipo de processo", afirmou.
Rodrigo Carvalheira é réu em três processos pelo crime de estupro (saiba mais abaixo). Nesta segunda-feira (28), ele deu o último depoimento em outro caso que também tramita na Justiça e está mais próximo de ser concluído. Durante a audiência, um grupo de mulheres fez um protesto em frente ao Fórum Desembargador Rodolfo Aureliano, na área central do Recife.
A vítima disse que a denúncia contra o juiz foi formalizada junto à Corregedoria do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE). A mulher denunciou o empresário Rodrigo Carvalheira por dois abusos cometidos nos anos de 2012 e 2013, quando ainda era menor de idade. Por isso, o caso tramita na 1ª Vara de Crimes Contra a Criança e o Adolescente, onde o magistrado atua.
Procurada, a Corregedoria do TJPE informou que todas as denúncias recebidas e os processos investigativos em andamento no órgão tramitam em segredo de Justiça. A instituição não confirmou se recebeu essa denúncia ou se há um processo disciplinar em andamento. O g1 tenta contato com o juiz Edmilson Cruz Júnior.
A vítima afirmou que foi abusada sexualmente duas vezes, em 2012 e 2013, quando tinha entre 17 e 18 anos. Em uma das ocasiões, o empresário deu uma carona para a jovem depois de uma festa.
"Ele mudou a rota da minha casa e acabou parando na frente de um hotel, dizendo que queria conversar comigo só, como meu amigo. Eu acreditei nele. Quando chego lá, ele me atacou. Foi extremamente violento. Eu não queria entrar em detalhes porque isso me machuca, mas depois de um ano aconteceu novamente", afirmou.
'Acuada' e em 'estado de choque'
Segundo a vítima, durante a audiência, o juiz reforçou estereótipos e conduziu um interrogatório que, de acordo com ela, não é compatível com a conduta esperada de um magistrado. Além dela, quatro testemunhas foram ouvidas durante a sessão.
"Estava esperando uma postura mais neutra, que é o normal de um juiz. E eu sofri um interrogatório. Foi basicamente isso. Em todo momento, o juiz tentando encontrar erros em mim, tentando encontrar ilegalidades, coisas que eu fizesse erradas. Ele falou isso, repetiu muitas vezes: 'eu quero entender a personalidade dela', enquanto ele deveria estar preocupado em entender a personalidade do estuprador e não a minha, que tomei coragem, que fui denunciar", contou.
De acordo com a mulher, os constrangimentos aumentaram depois que a jovem, na época menor de idade, confirmou que usava uma carteira de identidade falsa para entrar em boates.
"Não é legal, mas ok, acontecia. Ele [o juiz] usou isso contra mim. Ele começou a usar isso como se fosse uma menina 'safa', como se fosse uma menina 'danada', como se fosse uma menina que poderia e saberia sair de qualquer situação, como se eu tivesse essa condição de sair da condição, dentro da situação em que eu estava com o cara, que era cinco anos mais velho que eu, que tinha muito mais poder de persuasão do que eu", afirmou.
Além disso, de acordo com ela, o juiz perguntou sobre a vida amorosa da jovem e chegou a afirmar que a mulher "frequentava motéis". "Ele mentiu.
Eu disse na minha ouvida que nunca havia ido a um motel e com a minha mãe, que era minha testemunha, quando foi ser ouvida, ele falou para a minha mãe que eu frequentava motéis", relatou.
A vítima disse que se sentiu acuada e em "estado de choque" durante a sua escuta na audiência.
"A gente está sofrendo há um ano e meio, então fui me acuando, me acuando, até um ponto de eu chegar em 'estado de choque'. No final, tive que afrontar o juiz porque eu já não estava aguentando mais a quantidade de interrogatório que ele estava me fazendo", disse.
A mãe da jovem, que também não terá o nome divulgado para preservar a identidade da vítima, disse que todas as perguntas feitas pelo juiz tinham um "tom acusatório".
"A pior foi ele olhar para mim e dizer: 'a senhora sabe que a sua filha mente para a senhora, não sabe?' E eu só balancei a cabeça, já com receio, porque o tom de voz dele era imponente e ele está com a caneta. Eu não. Então, foi quando ele virou e disse: 'porque ela mente para a senhora. E se ela mente para a senhora, ela pode estar mentindo em outras coisas'. Eu fiz: 'eu nunca peguei minha filha mentindo'", contou.
Denúncia à Corregedoria
Na denúncia protocolada na Corregedoria, a vítima disse que incluiu um pedido de cancelamento da audiência na vara responsável.
"Ela [a advogada] entrou com um pedido de nulidade, fez uma petição citando todos os crimes que o juiz cometeu durante a audiência, citando todas as falas, destrinchando todas as falas, já peticionou esse pedido de nulidade e até agora não teve nenhuma resposta do juiz. [...] Com isso, a gente entrou com uma denúncia na corregedoria e já foi protocolada e provavelmente ele vai ser intimado essa semana para responder", explicou.
A vítima disse, ainda, que pretende levar o caso para o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
"A gente vai fazer a denúncia também no CNJ, mas a gente está seguindo o protocolo certo para que a audiência, a próxima que tenha, seja conduzida da forma correta, que eu não seja tratada como ré, eu seja tratada como vítima", declarou.
Segundo a mãe da jovem, a vítima passou dez dias em casa, sem querer sair, depois da audiência.
"Foram dez dias de terror. Dez dias à base de remédios, dez dias em que ela não saía do quarto, não tomava um banho [...]. Vergonha. O sentimento é esse, foi o que ela disse. Vergonha de tudo, de não ter entendido que aquilo era um estupro, por depois não saber o que aconteceu, porque ela não lembra. Pior sentimento é esse. [...] Isso é muito frio, isso é muito duro, isso dói muito", disse.
Cronologia do caso
Rodrigo Carvalheira, de 35 anos, faz parte de uma tradicional família pernambucana, com empreendimentos nas áreas de gastronomia, produção de eventos e imóveis:
- Ele já foi secretário de Turismo de São José da Coroa Grande, no Litoral Sul de Pernambuco;
- Também foi nomeado presidente do diretório estadual do antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB);
- Carvalheira foi alvo de cinco denúncias feitas por mulheres que faziam parte do círculo de amizade dele. Um caso prescreveu e outro ainda não teve andamento ou denúncia formal;
- Segundo relatos de duas mulheres ouvidas pela TV Globo em junho de 2024, elas foram dopadas antes dos abusos;
- Ambas disseram ao "Fantástico" que perderam a consciência e, quando acordaram, Rodrigo Carvalheira estava em cima delas;
- Preso preventivamente em 11 de abril de 2024, ficou sete dias detido no Centro de Observação e Triagem Professor Everardo Luna (Cotel), em Abreu e Lima, no Grande Recife;
- Foi solto, com uso de tornozeleira eletrônica, em 17 de abril de 2024;
- Carvalheira voltou a ser preso em 6 de junho, a pedido do Ministério Público de Pernambuco, por causa de um telefonema que fez, em dezembro de 2023, para o tio de uma suposta vítima. O MPPE considerou que o empresário estaria interferindo nas investigações;
- Foi solto novamente em 26 de novembro de 2024, após cinco meses detido.
Fonte: G1
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