Algumas histórias precisam ser contadas e é exatamente esse o caso desta. A catanduvense Mariana Sgargeta, 28 anos, esposa de Daniel Marques e mãe do pequeno Davi, virou mãe literalmente de um dia para outro. Até então, antes de ser mãe de adoção e de coração, ela não tinha filhos – eram apenas ela e o marido vivendo a vida conjugal. Até que o telefone tocou.
“Uma ligação que mudou a nossa visão e o nosso jeito de viver”, diz ela. Do outro lado da linha, representante do Conselho Tutelar explicou que Daniel Marques tinha um irmão de 9 anos de idade e perguntou se eles, Daniel e Mariana, poderiam ficar com ele. “A ligação foi bem clara que eles estavam procurando alguém para ficar com a criança, senão ela iria para o orfanato.”
A história do Davi trazia algo bem familiar com a vivenciada por Daniel, já que o pai deles teve trajetória bem complicada, abandonando os filhos nascidos de relações com mulheres que enfrentavam a dependência química. Foi assim com Daniel e, infelizmente, com Davi.
“A história do Davi é uma história de muita sobrevivência. Um menino tão pequeno, tão novo, que passou por muita coisa. É uma história triste, com um final feliz. Por conta da negligência da mãe, enfiada em drogas, totalmente dependente, vendendo as coisas de casa, ele presenciou várias vezes a mãe tentar tirar a própria vida, brigando com marginais”, conta Mariana.
Ele passou quase 9 anos de vida se alimentando apenas de leite, não foi à escola, não sabia escrever nem mesmo o seu próprio nome aos 9 anos de idade – e tinha muito medo do que poderia acontecer com sua mãe. Tornou-se, também, uma criança viciada no celular, ficando nas telas dia e noite, sem comer ou dormir. Não sabia escovar os dentes, se limpar ou tomar banho.
Diante das dificuldades e internações mal sucedidas da mãe, com outros parentes envolvidos com drogas, o Conselho Tutelar passou a buscar familiares por parte de pai. “Foi quando eles descobriram eu e meu marido, casados, cristãos, pessoas do bem, e não tínhamos filho. Quando eles ligaram pra nós, foi um choque pra mim. É uma notícia que você não tem o que fazer a não ser... Abrace, ame e acolha. Como o seu. Foi isso. Deus me presenteou com o Davi.”
VIDA NOVA
Foi assim que Mariana virou mãe de um dia para o outro. “Eu falo que as mães que geram os seus filhos têm nove meses para se preparar. Eu não tive. Eu não tinha experiência nenhuma em como ser mãe. Mas quando aceitamos a missão de ter o Davi como filho, esse sentimento nasceu, começou a brotar e entendi que eu tinha a missão de cuidar de uma criança de 9 anos.”
Inicialmente o casal pensou que, com essa idade, o garoto não exigiria cuidados de um bebê, mas foi no dia a dia que eles entenderam que, na verdade, ele não sabia nada. Somou-se a isso os problemas de saúde e de crescimento – mostrando que o desafio seria muito grande.
“Nós ensinamos tudo o que ele precisava saber. Colocamos ele dentro da sociedade, do convívio social, da cidadania, de saber ter os direitos e os deveres. Ensinamos a tomar banho, a se alimentar de pouquinho em pouquinho. Ensinamos a ler durante meses, porque a escola não conseguia dar atenção para ele – e com muito esforço ele começou a se destacar na escola.”
De uma criança que não sabia ler ou escrever, Davi foi premiado como aluno destaque e representou a sala na formatura. “O Davi é uma luz, uma bênção. Ele veio para iluminar a nossa vida e ensinar muita coisa, aprendi muito mais com ele do que ele conosco. Ele mudou a nossa história. No início, ele chamava a gente de tia Maria e o Daniel de irmão. Hoje é mãe e pai.”
‘Você não aprende ser mãe, é um instinto’
Mariana Sgargeta diz que não aprendeu a ser mãe, porque isso apareceu como um instinto. Confidenciou, também, que quer ter mais filhos, mas que hoje o Davi é o foco. “Eu sempre quis ser mãe de muitos filhos e acredito que vou ser mãe de muitos filhos, mas a minha missão hoje é cuidar do Davi e Deus colocou isso dentro do meu coração, dentro do coração do meu marido.”
No início, lembra Mariana, o menino até a rejeitou como mãe, o que causou muito sofrimento. “Foi muito difícil, não podia chamar atenção dele, ele batia de frente e me rejeitou, olhava somente para o meu marido, me tirava da jogada e da família. E isso foi me machucando muito, porque além de ter a missão de cuidar do Davi, tive que entender porque ele me rejeitava.”
Orando para Deus, Mariana aos poucos fez com que as coisas mudassem. “Hoje eu falo que ele é meu grude. É mãe aqui, mãe ali. Dias tão difíceis, noites de choro se tornaram alegria. Eu falo que ele é mais parecido comigo do que eu acredito que se eu tivesse um filho.”
Ela afirma que hoje, aos 11 anos, Davi tem personalidade, aprendeu o que é amar e a respeitar. A trajetória da família também teve muito apoio dos irmãos da igreja, que contribuiu para a compra de roupas, brinquedos, uma cama para ele dormir e a mochila da escola.
“Hoje o Davi entende o quanto Deus foi bom com ele, dando uma família, uma nova oportunidade. E eu entendo como Deus foi bom comigo, porque me deu essa experiência de ser mãe de um jeito diferente. Mãe não é somente quem gera no útero. Existe mãe, mãe de oração, mãe de coração, mãe de adoção. Adotei uma criança que não é meu sangue, mas é meu filho.”
Fonte: O Regional



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